Por Maurício Thuswohl, especial para a RBA publicado 08/09/2014 08:59, última modificação 08/09/2014 10:46
No
Rio, bagunça nas alianças partidárias atrapalha tomada de decisão do eleitor
Nunca foi tão difícil
descobrir quais são as alianças de fato dos partidos no Rio de Janeiro, onde as
negociações secretas e as relações pessoais atropelaram os acordos políticosCarlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca que amava Dora...
Marina apoia Romário que apoia Lindberg que apoia Dilma que apoia Pezão que apoia Aécio que apoia Cesar... É esse o cenário das eleições deste ano no Rio de Janeiro. Para poeta nenhum botar defeito.
Não há como não
se lembrar da canção de Chico Buarque – ou do poema de Carlos Drummond de
Andrade que o inspirou – quando se observa as alianças, formais e
informais, feitas para as eleições deste ano no Rio de Janeiro. A começar pela
montagem dos palanques presidenciais e chegando à formação das chapas
majoritárias para o governo estadual e o Senado, o que se vê no Rio é um
cenário político movediço onde nem tudo é o que parece. Mesmo que o termo
“bacanal eleitoral” cunhado pelo prefeito carioca Eduardo Paes (PMDB) possa
soar exagerado, esta é, com certeza, desde a redemocratização, a eleição com
mais acordos insólitos, fogo amigo e viradas de casaca em terras fluminenses.
O exemplo mais
notável das idas e vindas destas eleições no Rio é o movimento autointitulado
“Aezão”, deflagrado por lideranças do PMDB no estado para unir as campanhas do
presidenciável tucano Aécio Neves e do governador Luiz Fernando Pezão,
candidato à reeleição. Apesar do declarado apoio de Pezão à presidenta Dilma
Rousseff, candidata à reeleição pelo PT, o movimento foi organizado pelo
presidente regional do PMDB, Jorge Picciani, com a maldisfarçada bênção do
ex-governador Sérgio Cabral. Foi em uma reunião na casa de Cabral que Aécio
convenceu o aliado Cesar Maia (DEM), até então candidato ao governo do Rio, a
desistir da candidatura e apoiar Pezão. Em troca, o ex-prefeito do Rio teve
assegurada sua indicação como candidato ao Senado na chapa de Pezão.
Ao avalizar
esse acordo, Cabral renunciou ao direito de concorrer ele próprio ao Senado,
como inicialmente previsto, deu as mãos a um desafeto histórico na política
regional e, principalmente, fez nascer na prática o movimento “Aezão”. No
início, tudo parecia muito forte, e Picciani reuniu em um almoço em torno de
Aécio mil e seiscentas pessoas, entre elas 60 prefeitos de municípios
fluminenses. No entanto, a reviravolta no cenário eleitoral federal, com a
entrada de Marina Silva (PSB) na disputa presidencial, arrefeceu o ímpeto do
movimento tucano-peemedebista. Ao ver as intenções de voto em Aécio no estado
minguarem pesquisa após pesquisa, muitos prefeitos e lideranças políticas do
PMDB estão optando por voltar ao apoio inicial à Dilma.
Esvaziado o
“Aezão”, já está sendo preparado para 15 de setembro um ato onde prefeitos do
PMDB, muitos deles oriundos do fracassado movimento, manifestarão apoio a
Dilma. O ato está sendo articulado por Eduardo Paes, que em nenhum momento
havia aceito o "acordo branco" feito entre Cabral e Cesar, de quem o
atual prefeito do Rio foi afilhado político, mas é hoje adversário
irreconciliável. Sem apresentar aparentemente qualquer vestígio de
constrangimento, a volta dos ex-futuros-aecistas aos braços de Dilma é
facilitada pela falta de pontes construídas entre o PMDB fluminense e Marina
Silva.
Concretamente,
contribuiu para o esvaziamento do “Aezão” o fato de o PSDB nacional, após o
declínio de Aécio nas pesquisas, ter parado de custear parte do material de
campanha de diversos candidatos a deputado do PMDB no Rio, como até então vinha
fazendo. Agora, a estratégia do tucano no estado passa a ser outra. Sem muito o
que fazer na capital, onde Marina lidera as pesquisas seguida por Dilma, Aécio
já anunciou que nas próximas semanas irá priorizar as atividades de campanha
nos municípios de São Gonçalo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu, que são,
respectivamente, o segundo, terceiro e quarto colégios eleitorais do Rio.
Palanque quádruplo
Apesar do
flagrante adultério do PMDB do Rio com Aécio Neves, foi com Pezão que Dilma
realizou seu primeiro ato oficial de campanha, no dia 24 de julho. Desde então,
a presidenta vive no estado uma situação curiosa. Os quatro primeiros colocados
nas pesquisas pertencem a sua base de apoio, mas isso tem trazido mais
dificuldades do que vantagens, já que as candidaturas ao governo estadual
abrigam grupos políticos antagônicos. O senador Lindberg Farias, candidato do
PT a governador, por exemplo, até o momento não teve a companhia de Dilma em
nenhum ato de campanha, o que tem suscitado muitas queixas entre os dirigentes
petistas fluminenses.
Outro que
também ainda não fez campanha ao lado de Dilma é o senador Marcelo Crivella
(PRB). Já Anthony Garotinho (PR) esteve com a presidenta em uma concorrida
visita a um restaurante popular construído pelo ex-governador na zona oeste do
Rio. Considerado pela direção nacional do PT como o aliado mais problemático
das eleições no Rio, Garotinho, que durante a Copa do Mundo chegou a negociar
uma aliança com o então candidato Eduardo Campos (PSB), não esconde que seu
objetivo maior é garantir a neutralidade de Dilma em um eventual segundo turno:
“Se a Dilma votasse no Rio, tenho certeza de que votaria em mim. Ela é minha
amiga, nós militamos juntos muito tempo no PDT”, diz Garotinho.
Já Lindberg
teve que ouvir de um jornalista, durante o último debate, pergunta sobre
suposta animosidade entre ele e a presidenta. O candidato do PT negou e
garantiu que Dilma estará ao seu lado no “momento certo”. Por enquanto, somente
o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece na propagada eleitoral de
tevê do petista. Presidente regional do PT, o prefeito de Maricá, Washington
Quaquá, minimiza a ausência de Dilma e aponta o apoio exclusivo de Lula – que
só fará campanha para Lindbergh no primeiro turno – como decisivo para o
ansiado crescimento do petista nas intenções de voto: “O Lula é quem mais
influencia o voto popular, por isso seu apoio é prioritário. Todas as campanhas
querem o Lula, mas ele apoia Lindberg”, diz.
Marina e Romário
Nos bastidores,
comenta-se que a suposta “frieza” entre Dilma e Lindberg surgiu depois que o
candidato ao governo estadual aceitou o apoio do PSB, em acordo costurado com
Eduardo Campos. Embora Lindberg tenha por diversas vezes reiterado seu apoio à
reeleição de Dilma, esta teria visto no acordo com Campos uma movimentação
dúbia do senador. Esse possível mal-estar não diminuiu com a entrada em cena de
Marina, uma vez que a maioria dos integrantes da Rede no Rio já apoiava
Lindbergh. A recusa de Marina em subir em palanques petistas e tucanos
distendeu o nó político, mas a verdade é que os petistas fluminenses aguardam
ansiosos o primeiro ato público conjunto de Dilma e Lindberg.
Um evidente
incômodo para a presidenta é o deputado federal Romário, candidato ao Senado
pelo PSB e que, fiel ao seu estilo, não cessa de criticar o governo Dilma. O
problema é que a popularidade do ex-jogador, que lidera as pesquisas de
intenção de voto, foi talvez o maior atrativo enxergado por Lindberg ao fechar
aliança com os socialistas. Com a ajuda de Lula, Lindberg teria obtido de Romário
ao menos a promessa de “silêncio e boa convivência” com Dilma durante a
campanha. Mas, o deputado já avisou que fará atos políticos “avulsos” na
companhia de Marina.
Enfim, o certo,
ao que parece, é que Marina apoia Romário que apoia Lindberg que apoia Dilma
que apoia Pezão que apoia Aécio que apoia Cesar... É esse o cenário das
eleições deste ano no Rio de Janeiro. Para poeta nenhum botar defeito.
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