terça-feira, 20 de setembro de 2016



Letargia incompreensível

Está praticamente afastada, segundo se noticia, a possibilidade de que o Tribunal Superior Eleitoral julgue ainda neste ano a ação em que se questionam as contas de campanha da chapa Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB) na disputa presidencial de 2014.
Como informou o presidente da corte, ministro Gilmar Mendes, novos documentos e testemunhos terão de ser levados em consideração, com o que uma decisão definitiva viria apenas em 2017.
Se confirmado, esse atraso será tudo menos compreensível.
Não surgiram ontem as suspeitas de irregularidades envolvendo doações eleitorais. Tampouco são recentes as acusações dirigidas à campanha da chapa vencedora no último pleito nacional. Há muito, como se sabe, PT e PMDB têm sido citados como beneficiários de dinheiro desviado no escândalo investigado pela Lava Jato.
Como se tais circunstâncias já não fossem suficientes para suscitar máximo empenho por parte das autoridades do TSE, a elas se soma uma determinação constitucional da maior importância.
Pela Carta de 1988, se por qualquer motivo ficarem vagos os cargos de presidente e vice antes do prazo, haverá eleição direta para escolha do sucessor apenas se eles não tiverem passado da metade do mandato. Caso a dupla vacância ocorra nos dois últimos anos de governo, a votação será indireta, realizada só pelos parlamentares.
Não se sabe, naturalmente, qual será o resultado do julgamento pelo TSE. É possível que os ministros dessa corte considerem insuficientes as provas reunidas no processo e decidam pela absolvição.
O caso ainda se complica pelo impeachment de Dilma. Abrem-se insólitas polêmicas jurídicas, havendo quem questione se as supostas irregularidades nas contas do PT podem ser invocadas também contra o agora presidente Temer.
Na hipótese, porém, de o TSE concluir pela cassação do mandato, cabe perguntar: o país aceitará reviver eleição indireta? Os ministros da corte eleitoral conseguirão dissociar seu julgamento jurídico da perspectiva de turbulência social?
Sendo lícito responder negativamente às duas questões, a elas se acrescenta outra, apenas retórica: a quem interessa deixar para 2017 o julgamento no TSE?
A ação estendeu-se por tempo demais. Seu desfecho, que meses atrás talvez guardasse a melhor solução para a crise política, a esta altura pode surgir como novo complicador; ainda assim, é imperioso que venha logo.


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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Denúncia contra Lula na Lava Jato usa dados de delação cancelada
Folha de S.Paulo 18/09/2016
A denúncia da força-tarefa da Operação Lava Jato contra o ex-presidente Lula, apresentada na última quarta (14), contém uma informação que só aparece no esboço da delação premiada do empresário Léo Pinheiro, que foi recusada pela Procuradoria-Geral da República.
Foi Pinheiro, sócio da OAS, quem disse que a empreiteira descontava os repasses que fez para o apartamento tríplex do Guarujá de uma espécie de conta-corrente que a empresa mantinha com o PT, usada para pagar propina da Petrobras.
No documento que fez para negociar o acordo de delação premiada, Pinheiro, sócio da OAS que já foi condenado a 16 anos de prisão, dizia: "Ficou acertado com [João] Vaccari que esse apartamento seria abatido dos créditos que o PT tinha a receber por conta de propinas em obras da OAS na Petrobras".
Um esboço do documento foi divulgado pela revista "Veja" em agosto.
Resposta
Os procuradores da Lava Jato em Curitiba não quiseram comentar qual a fonte da acusação segunda a qual a propina de Lula era descontada.
A reportagem enviou mensagens para Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon, mas não obteve respostas.
A assessoria de imprensa do Ministério Público Federal afirmou que os procuradores não atenderam jornalistas nesta semana e não abririam uma exceção à reportagem.
A defesa do ex-presidente Lula diz que não há prova alguma de que ele tenha sido beneficiado por desvios da Petrobras.
Os advogados também negam que o tríplex seja ou tenha sido do ex-presidente.

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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Como seria um SAC para os desiludidos com o impeachment?
Folha de São Paulo - 04/09/2016  

"República Federativa do Brasil, Tamara, bom dia!". "Oi, Tamara, tudo bem? Eu queria fazer uma reclamação". "Pois não, senhor". "Então, Tamara, é que eu fui, aí, nas manifestações pró-impeachment, eu bati panela... Tipo, falaram que era contra tudo que tava errado, que ia tirar primeiro a Dilma, ajeitar a economia, depois ia tirar o Cunha, ia fazer, aí, a limpa. Mas eu vi esses dias a votação do impeachment, que eu tava com problema na lombar e fiquei em casa. Tamara: Collor?! Renan Calheiros?! O figura, lá, do helicóptero de cocaína! São esses caras que tão de patrão agora!". "Desculpa, senhor, no caso, qual seria a sua reclamação?". "Ué, qual seria?! Seria que falaram que era pra melhorar, mas só tem sinistrão comandando a parada!". "Senhor, no caso, o processo de impeachment foi um processo inteiramente legal, sob o comando do STF, com amplo direito de defesa". "É, eu fiquei meio na dúvida, mas beleza, não é disso que eu tô falando, eu tô falando de todo resto. E o Cunha, com propina na Suíça?". "Isso depende dos deputados, senhor, eu não tenho como 'tar' te informando". "E quem são os deputados, Tamara? É tudo amigo do Cunha! Do partido do Cunha. Da base de apoio do governo do Cunha. Cê assistiu às sessões no Senado, Tamara?". "Eu não estou autorizada a dar essa informação, senhor". "Beleza, então eu te dou essa informação. Sabe o que o Renan Calheiros falou? Que eles tavam inaugurando uma "nova fase na política brasileira". O Renan, Tamara! O cara que participou de todos os governos brasileiros desde, tipo... Se marcar, o Renan chegou com o Cabral, ele era o cara que dava os espelhinhos pra formar um centrão ianomâmi-tupinambá e azeitar a saída do pau-brasil. Cê acha que o Renan vai fazer a 'nova política', Tamara?". "Senhor, eu não estou autorizada." "Beleza, beleza. Tamara, e o Jucá? O Romero Jucá foi gravado planejando tirar a Dilma pra parar a Lava Jato e quando o Temer entrou ele virou ministro do quê?! Do Planejamento!". "Senhor, o Romero Jucá caiu assim que saíram as gravações!". "Caiu! Ô, se caiu! Caiu que nem a Simone Biles, de pé juntinho e recebendo aplauso! Tava lá, todo pimpão na votação! E o PSDB pagando pau pra esses caras! Eu sempre votei no PSDB. Eu achei que se a Dilma caía, não é que o Aécio ia assumir, mas, tipo, o PSDB ia ficar meio no comando, mas cê viu na TV? O PSDB tá pro PMDB que nem o PFL tava pro PSDB na época do Fernando Henrique! Pior, que o PFL era forte, o PSDB agora parece, parecem uns garçons servindo caipirinha pro PMDB!". "Senhor, desculpa, mas qual seria a sua reclamação?". "Como, qual seria? Seria que tá tudo zoado, Tamara! Falaram que era pra melhorar, mas voltou pra, sei lá, 1989! Vou acordar amanhã e vai ter um Chevette na minha garagem e chinelo Samoa no meu pé e 10 milhões de cruzados novos no meu bolso pra eu comprar um Lollo e assistir "Xou da Xuxa" numa Telefunken!". "Senhor, lamento, mas eu não tenho como te ajudar". "Como não, Tamara? Me venderam o impeachment dizendo que era pra melhorar o país, eu nem tirei da caixa e já tô vendo que não funciona! Cês vão ter que trocar por outro produto!". "E qual seria o produto, senhor?". "Eleições, Tamara! Eleições diretas já ou as minhas paneladas de volta!"