Eventual entrada de Marina Silva na disputa eleitoral cria
problemas tanto para o tucano Aécio Neves, como para a presidente Dilma
Rousseff
A
ex-senadora Marina Silva é a mais provável substituta de Campos na cabeça de
chapa do PSB para a Presidência da República (divulgação)
Paulo Moreira Leite,
em seu blog
A falta de cerimonia
exibida por tantos colunistas conservadores para emplacar Marina Silva de qualquer maneira como
candidata presidencial do PSB, menos de 24 horas depois da morte de Eduardo
Campos, é um sintoma de vários elementos da campanha de 2014.
O
maior é o receio de que Aécio Neves já tenha chegado a seu limite eleitoral –
muito longe daquilo que seria necessário para dar a seus aliados esperanças
reais de vencer o pleito – e é preciso encontrar um atalho para tentar derrotar
Dilma. Desse ponto de vista, a oportunidade-Marina veio a calhar.
Ao contrário de Aécio
Neves, herdeiro identificado com o mais tradicional conservadorismo brasileiro,
onde até a denúncia de caráter moral se compromete com a descoberta da pista de
aeroporto de R$ 14 milhões na fazenda do tio-avô, Marina consegue apresentar-se como
candidata do “novo.”
Uma
década de esforço permanente para criminalizar a política a pretexto de
combater a corrupção não poderia deixar de produzir resultados. O mais visível
deles, na campanha de 2013, é Marina.
Foi
adotada por eleitores , especialmente jovens, sem partido político, para quem
todo político é ladrão e só pensa em se arrumar. Basta reparar quais foram
partidos que Marina frequentou e quais aliados cultivou ao longo de sua já
longa existência política para ponderar o que há de verdade e de mentira nessa
visão – mas este é assunto para um longo debate politico, destinado a proteger
e recuperar nossos valores democráticos.
Basta
registrar que sua assessoria é formada por economistas que transformaram a
austeridade e o baixo crescimento num horizonte de busca permanente, usando o
argumento ecológico como instrumento para impedir o crescimento econômico. Veja
só. Ao contrário de conservadores tradicionais, partidários de políticas de
austeridade por um período determinado, para derrubar a inflação, por exemplo,
eles defendem o baixo crescimento como um valor em si. Sei que é meio difícil
de acreditar, num país que tem tanto emprego para criar, tanta infraestrutura
para desenvolver, tanta carência para sanar. Mas é verdade.
Referindo-se
a preservação ambiental, o mais conhecido deles, Eduardo Gianetti da Fonseca,
já foi capaz de dizer que é preciso combater o consumo excessivo…de carne e
leite. Juro. Para ele, como ninguém respeita os padrões ambientais, é preciso
encarecer o preço dessas proteínas para que o consumo seja reduzido. Está lá,
no livro “O que os economistas pensam sobre sustentabilidade,” página 72 e
seguintes:
“Comer
um bife é uma extravagância do ponto de vista ambiental. O preço da carne vai
ter de ser muito caro, o leite terá de ficar mais caro. Tudo o que tem impacto
ambiental vai ter de embutir o custo real e não apenas monetário. Essa é a
mudança decisiva.”
Aderindo
a palavra de ordem do candidato vizinho de palanque, que falou em medidas
impopulares, Gianetti admite na mesma entrevista: “O caminho que estou propondo
é sofrido.”
Seu
parceiro ideologico, André Lara Rezende, advoga ideias curiosas, próprias de
quem admite uma postura de subordinação entre nações. Para ele “a questão
Estado-Nação ficou ultrapassada.”
Depois
de apontar para um futuro onde uma catástrofe ecológica capaz de reduzir a
humanidade para 500 milhões de pessoas (hoje somos sete bilhões) já se tornou
“irreversível” e “tangível”, Lara Rezende advoga o baixo crescimento, também,
mas adverte: “crescimento material com Ecologia é difícil.”
É
certo que uma candidata com essas ideias teria uma vida difícil no PSB, partido
nascido à sombra de Miguel Arraes, o líder popular que resistiu a ditadura de
forma exemplar, chegando a ser preso em Fernando de Noronha para não entregar o
cargo que os generais de 64 pretendiam lhe tomar. Imagine esses cidadãos no
comando da política econômica um partido que pede votos em sindicatos de
trabalhadores e que, em 2014, conseguiu apoio de lideranças operárias de
tradição, como Ubiraci Dantas de Oliveira, o veterano Bira, metalúrgico de São
Paulo, que já era possível encontrar em comícios do 1o de maio no final dos
anos 1970, e que hoje é dirigente da CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do
Brasil).
Ninguém
deve ignorar que Marina e Eduardo Campos fizeram um casamento de conveniências
quando a presidente da ex-Rede ficou sem partido. Campos lhe abriu uma legenda,
na esperança de receber uma necessária transferência de votos. Marina
conquistou um palanque, indispensável para quem corria o risco de ficar calada
em 2014. Mostrando uma grande capacidade política para agregar apoios e somar
contrários, Eduardo Campos transformou-se no grande ponto de equilíbrio
político dentro do PSB. Era o protetor de Marina, o que pedia tolerância para
suas opiniões e divergências. Querer usar a tragédia do Guarujá para alterar a
natureza desse acordo é cometer uma violência. Numa comparação abusada, mas que
faz sentido do ponto de vista das diferenças entre PSB e a Rede, o verdadeiro
partido de Marina, seria igual a chamar Michel Temer para ser titular na chapa
do PT — caso Dilma Rousseff fosse impedida de disputar a presidência por uma
razão qualquer.
Um
elemento a favor da escolha de Marina não chega a ser especialmente “novo,”
como gostam de enxergar seus aliados. Espera-se que, com sua popularidade, ela
ajude o partido a engordar a bancada de parlamentares, estaduais e federais.
Isso costuma acontecer, mas nem sempre. Em 2010, num caso clínico de sucesso
individual, Marina chegou perto de 20% dos votos como candidata presidencial
mas não conseguiu acrescentar um único novo parlamentar à bancada do Partido
Verde — desempenho que está na origem de boa parte de suas dificuldades para
permanecer no PV.
Ainda
assim, a popularidade de Marina provoca justo temor no PSDB, pois pode
transformar-se numa candidatura capaz de atropelar Aécio e jogá-lo para
terceiro lugar e fora da campanha no segundo turno, o que seria, para os
tucanos, uma derrota pior que todas as outras desde 2002.
Para
o PT, a recíproca, no caso, também é verdadeira. Para o QG da campanha petista,
o cenário ideal – fora a hipotética vitória em primeiro turno, cada vez menos
realista – é enfrentar Aécio Neves numa segunda votação.
Os
petistas sempre estiveram convencidos de que, num segundo turno, a maioria dos
parlamentares, dirigentes e eleitores do PSB não serão capazes de abandonar a
própria história para votar no PSDB, que sempre denunciaram como partido
conservador, e farão o caminho de volta para uma aliança com o PT. Era com essa
possibilidade que Dilma e Lula sempre trabalharam nos últimos meses. Evitaram
atitudes hostis e indelicadas, reservado a artilharia mais pesada para Aécio.
Qualquer mudança, neste horizonte, irá atrapalhar os planos de Dilma.
E
é por isso que nossos conservadores já apostam em Marina.
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