sexta-feira, 29 de julho de 2011

Reforma Política



“Lula se equivocou quando propôs urgência na Reforma Política. Se a motivação para isso foi enfrentar o que alguns chamam de nossa desorganização político-institucional e consequente pouca representatividade política, eu não concordo com isso. O problema de credibilidade política é mundial, assim como acontece com a corrupção. Não há lei que resolva esse problema, que é ideológico”. A afirmação é de Godofredo Pinto, ex-prefeito de Niterói e ex-deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores, que, no último dia 23 de julho, participou do ciclo de debates PT às 10, organizado pela corrente interna do PT Vertente Sindical Petista.
“Eu queria saudar os organizadores dessa iniciativa e dizer que sem debate político não se tem partido. A nossa missão é de ampliar o debate político para garantir a participação popular. Veja só: o nosso povo está tão mal acostumado na miséria que qualquer melhoria de condição de vida já é vista como um surgimento de uma nova classe média. Em todo o mundo, nós estamos vendo uma marcha pela direitização. Hoje, a concentração da riqueza é tão alta que chega a ferir a democracia”, avalia Wladimir Pomar, um dos mais experientes analistas políticos do País e membro da coordenação da campanha Lula Presidente de 1989. “Hoje, eu vejo que muitas pessoas das camadas mais pobres mudaram de visão, de 89 para cá”, lembra Wladimir, um dos debatedores do PT às 10 do dia 23.
Outro debatedor foi o economista Saturnino Braga, ex-prefeito do Rio de Janeiro e ex-senador da República. Para ele, a atual conjuntura internacional é preocupante, “com alongamento dessa crise e inclusive com ameaças de guerras para encontrar soluções”. Saturnino, em sua análise, considerou que o neoliberalismo despolitiza mais que uma ditadura: “No mundo neoliberal, a política perde substância para o Deus Mercado; as pessoas se desentendem de politica”, alerta Saturnino Braga.
Concordando com Godofredo, Saturnino disse ainda que “nunca considerei a Reforma Política como algo essencial”. Por sua vez, o ex-prefeito de Niterói lembrou que os partidos políticos precisam se adaptar às novas ferramentas de comunicação. “Hoje, existe uma militância virtual que necessariamente não passa pelos partidos. Logo, os partidos precisam se reciclar”.
Com relação à Reforma Política, Godofredo, mesmo reticente quanto à iniciativa, apresentou algumas de suas propostas: fim das coligações partidárias – “com isso, automaticamente, as legendas de aluguel desapareceriam”-, financiamento público não exclusivo e rejeição às listas fechadas partidárias – “essas listas podem contribuir para a corrupção”.
O interesse pelo debate adiou o almoço de todos os presentes, pois a discussão se estendeu por quase 5 horas, sem interrupção. “Da próxima vez, o velhinho aqui vai pedir um churrasco”, comentou, bem-humorado, Wladimir Pomar, o último a sair da mesa de debates. “Parabéns por essa iniciativa e retorno aos bons debates, verdadeira formação política; e os convidados não deixando nenhuma pergunta sem responder”, comentou José Amaral, em mensagem eletrônica transmitida logo após o encontro.
Houve vários questionamentos: “Falta mulher nessa mesa de debate”, lembrou Tânia Ferreira, do setor ferroviário. “Sou contra a posição do Godofredo, que se colocou contra a política de cotas para mulheres e negros”, disse Joel, dos Correios. “O governo baixou a Medida Provisória 532, que pode privatizar os Correios e provocar demissões em massa. Fez isso sem qualquer diálogo com os trabalhadores”, denunciou Flávio, também dos Correios.
Fernando Paulino, mediador do debate e dirigente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado, informou que uma grande conquista social no campo da comunicação social poderá ser cortada: está para ser votada no Congresso Nacional projeto de lei que flexibiliza o horário do programa “A Hora do Brasil”, transmitida diariamente por rede nacional de rádio, levando informações sobre atividades parlamentares para uma audiência de mais de 80 milhões de brasileiros – a maioria residindo no Interior do País. O projeto é do interesse das grandes empresas de mídia, que tentam assim ampliar sua hegemonia na circulação das informações.
Em agosto, tem mais PT às 10.

Texto: Fernando Paulino

Nenhum comentário:

Postar um comentário